A Teologia da Libertação Por Alcides Leite*

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Teologia da Libertação é uma corrente do estudo sobre Deus focada na situação de sofrimento experimentada pela população mais vulnerável. O termo Teologia da Libertação foi usado, pela primeira vez, pelo teólogo peruano Gustavo Gutierrez como título de seu livro, lançado em 1971. Outros importantes expoentes da Teologia da Libertação foram os irmãos brasileiros Leonardo e Clodovis Boff, Jon Sobrino, em El Salvador e Juan Luis Segundo, no Uruguai. 

Embora tenha raízes em setores do pensamento teológico europeu, a Teologia da Libertação frutificou na América Latina. Várias foram as razões para isto, entre elas, a grande desigualdade social e as ditaduras militares em vários países do continente; a influência do marxismo nas principais universidades e a abertura gerada pelo Concílio Vaticano II. Um importante momento para o fortalecimento da Teologia da Libertação foi a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Medellin, em 1968, quando a Igreja reafirmou sua opção preferencial pelos pobres.

Contrariamente ao que muitos pensam, a Teologia da Libertação nunca foi condenada pelo Vaticano. O que foi condenado foi o vício de origem praticado por alguns teólogos que, segundo afirma o próprio Clódovis Boff em um longo artigo publicado em agosto de 2007, inverteram o primado da teologia. Em lugar de Deus foi colocado o pobre como princípio operativo. Assim, dizia Clodovis: “Que o pobre seja um princípio da teologia ou uma perspectiva é possível, legítimo e mesmo oportuno. Mas, apenas como princípio segundo, como prioridade relativa. Se assim é, a teologia que arranca daí, como é a Teologia da Libertação, só pode ser um ‘discurso de segunda ordem’, que supõe em sua base uma ‘teologia primeira’”, e “quando o pobre adquire o estatuto de primum epistemológico, o que acontece com a fé e sua doutrina no nível da teologia e também da pastoral? Acontece a instrumentalização da fé em função do pobre. Cai-se no utilitarismo ou funcionalismo em relação à Palavra de Deus e à teologia em geral. O resultado inevitável é a redução da fé e, em especial, sua politização”.

Na década de 1980, a Congregação para a Doutrina da Fé, órgão oficial de defesa da ortodoxia da doutrina católica, lançou dois documentos esclarecendo os aspectos positivos da Teologia da Libertação e corrigindo os desvios cometidos por alguns teólogos desta corrente. Vejamos a seguir os principais pontos dos dois documentos citados.

O primeiro documento, chamado de Libertatis Nuntius, publicado em agosto de 1984, reforça a validade da Teologia da Libertação, quando diz: “Tomada em si mesma, a expressão «Teologia da Libertação» é uma expressão perfeitamente válida: designa, neste caso, uma reflexão teológica centrada no tema bíblico da libertação e da liberdade e na urgência de suas incidências práticas”, mas também afirma: “O Evangelho de Jesus Cristo é mensagem de liberdade e força de libertação. A libertação é, antes de tudo e principalmente, libertação da escravidão radical do pecado. Ela exige, por uma consequência lógica, a libertação de muitas outras escravidões, de ordem cultural, econômica, social e política, que, em última análise, derivam todas do pecado e constituem outros tantos obstáculos que impedem os homens de viver segundo a própria dignidade”.

Sobre os desvios a serem corrigidos o documento diz: “Alguns, com a intenção de chegarem a um conhecimento mais exato das causas das escravidões que desejam eliminar, servem-se, sem a suficiente precaução crítica, de instrumentos de pensamento que é difícil, e até mesmo impossível, purificar de uma inspiração ideológica incompatível com a fé cristã e com as exigências éticas que dela derivam” e “Não se pode tampouco situar o mal, unicamente ou principalmente, nas «estruturas» econômicas, sociais ou políticas, como se todos os outros males derivassem destas estruturas como de sua causa: neste caso a criação de um «homem novo» dependeria da instauração de estruturas econômicas e sócio-políticas diferentes. Há, certamente, estruturas iníquas e geradoras de iniquidades, e é preciso ter a coragem de mudá-las. Fruto da ação do homem, as estruturas boas ou más são consequências antes de serem causas. A raiz do mal se encontra, pois, nas pessoas livres e responsáveis, que devem ser convertidas pela graça de Jesus Cristo, para viverem e agirem como criaturas novas, no amor ao próximo, na busca eficaz da justiça, do autodomínio e do exercício das virtudes”.

O documento conclui: “Chamar a atenção para os graves desvios que algumas «teologias da libertação» trazem consigo não deve, de modo algum, ser interpretado como uma aprovação, ainda que indireta, aos que contribuem para a manutenção da miséria dos povos, aos que dela se aproveitam, aos que se acomodam ou aos que ficam indiferentes perante esta miséria”.

O segundo documento da Congregação para Doutrina da Fé a respeito do tema Teologia da Libertação foi publicado em março de 1986. Intitulado “Libertatis Conscientia” este documento traz uma longa reflexão a respeito do conceito de liberdade e libertação. Logo no início o texto diz: “A liberdade exige condições de ordem econômica, social, política e cultural que tornem possível o seu pleno exercício” e mais adiante: “As desigualdades iníquas e todas as formas de opressão, que hoje atingem milhões de homens e de mulheres, estão em aberta contradição com o Evangelho de Cristo e não podem deixar tranquila a consciência de nenhum cristão” e mais: “A prioridade reconhecida à liberdade e à conversão do coração não elimina, de forma alguma, a necessidade de uma mudança das estruturas injustas. É, portanto, plenamente legítimo que aqueles que sofrem opressão por parte dos detentores da riqueza ou do poder político, ajam, por meios moralmente lícitos, a fim de obter estruturas e instituições nas quais os seus direitos sejam verdadeiramente respeitados”.

Recentemente o tema da Teologia da Libertação voltou à tona. O atual prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, o alemão Ludwig Gerhard Muller, escreveu, junto com o teólogo Gustavo Gutierrez, um livro sobre o tema, com o título “Da Parte dos Pobres: Teologia da Libertação, Teologia da Igreja”. E em setembro deste ano o papa Francisco recebeu, no Vaticano, o famoso teólogo peruano.

Purificada dos conceitos marxistas, reafirmada pelo Vaticano como uma linha teológica válida e necessária, e passadas as turbulências políticas do século passado, a Teologia da Libertação tem tudo para renascer na América Latina e em outras regiões do mundo. A concentração de renda, a falta de condições de vida minimamente dignas para a maioria da população e, sobretudo, a indiferença em relação ao sofrimento dos mais carentes, exigem da Igreja Católica uma postura mais rigorosa a respeito da incoerência daqueles que se dizem cristãos e ao mesmo tempo são omissos em relação às injustiças sociais. Afinal, as palavras do Evangelho são bastante claras a este respeito: «Se alguém diz: eu amo a Deus, e não ama seu irmão, é um mentiroso; pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20).

* Alcides Leite é economista e professor da Trevisan Escola de Negócios

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