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E se o Brasil criasse um Pix para a IA? – Por John Park

 

Imagine uma mensagem no celular do dono de uma pequena empresa. Ele busca os arquivos. O contador aguarda os dados para fechar o mês. A declaração do Simples Nacional e os impostos têm prazo.
Agora imagine um assistente de IA que reúna as notas e prepare tudo para o contador. Com os dados revistos e com seu aval, ele poderia enviar a declaração e buscar a guia. Mas como provar que pode agir em nome da empresa?
O primeiro turno das eleições no Brasil será em 4 de outubro. E essa cena traz uma questão para o próximo mandato: como o Estado vai lidar com agentes que atuam em nosso nome?
No trabalho com contadores, vejo muita demanda por automação. Se criar programas ficar mais barato e a IA fizer mais tarefas, mais empresas poderão oferecer esse tipo de serviço. Mas saber fazer não confere a um programa o direito de agir.
É daí que vem a ideia de um “Pix para a IA”. Não seria um aplicativo do governo nem uma única IA. Seria uma base comum para reconhecer os agentes escolhidos por pessoas e empresas.
Pense em CPF e procuração. Um “CPF para agentes” diria quem age e quem está por trás do programa. A máquina não viraria gente, mas também não precisaria fingir ser o usuário.
A procuração especificaria o que ele pode fazer. Ler documentos não dá direito a pedir um empréstimo. Fazer uma declaração não é o mesmo que enviá-la. O usuário definiria o prazo e os limites. E poderia voltar atrás.
A Receita já permite conceder acesso a serviços por meio de procuração digital. Não partimos do zero. A questão é levar essa lógica a mais agentes.
E por que Pix?
O Pix funciona entre bancos, sem exigir que todos usem o mesmo aplicativo. O Banco Central cuida da base e das regras comuns. Cada empresa oferece seu serviço.
Na IA, a ideia é que um agente possa agir em bancos, empresas e órgãos, dentro dos limites que você definiu. Sem isso, você pode acabar com um agente para cada serviço e ter de levar os dados de um lado para o outro.
Uma pequena empresa poderia usar a mesma estrutura de identidade e permissões em vários serviços, em vez de recriar tudo a cada conexão. Menos trabalho repetitivo pode reduzir o custo de entrada e abrir espaço para mais concorrentes. O usuário ganharia opções e poderia trocar de assistente sem perder acesso aos serviços.
Nessa proposta, o governo reuniria órgãos e empresas para testar regras comuns. Alguns serviços muito utilizados seriam os primeiros a aceitar agentes. Com mais serviços que aceitam agentes, mais empresas teriam motivos para criar produtos. Não seria preciso trocar todos os sistemas do país de uma só vez.
Em Singapura, o banco central trabalha com empresas para testar agentes financeiros e definir limites às suas ações. É uma forma de unir o Estado e as empresas, não um cadastro pronto para o país inteiro.
Para o Brasil, a hipótese é ir além de comprar IA pronta. Empresas daqui e de fora teriam onde criar e vender serviços, não só fazer testes. O objetivo seria criar um mercado para novos negócios, oferecendo mais opções a quem precisa resolver uma tarefa.
Os ganhos não são certos. Taxas altas podem deixar os pequenos de fora. Saber quem é um agente não prova que ele seja capaz. O projeto teria de proteger dados, definir quem é responsável por erros e manter serviços para quem não usa IA.
A eleição traz duas questões. Uma é qual IA o Estado vai usar. A outra é sobre em quais serviços o cidadão poderá usar a IA que escolheu. Um governo pode criar seu próprio assistente e, ao mesmo tempo, aceitar outros. Para o dono da empresa, a mudança seria percebida ao fechar o mês. Para o país, a questão é como transformar IA em serviços e negócios.

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