UFSCar e Universidade do Minho realizam pesquisa sobre o HIV no Brasil

Compreender como os subtipos do vírus da Aids, o HIV, se distribuem no Brasil, que pessoas eles afetam, o que contribui para sua disseminação nas diferentes regiões do País e quais são as características genéticas desse vírus em milhares de brasileiros. Esses foram alguns dos objetivos do estudo desenvolvido pela parceria entre a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Universidade do Minho (UMinho), em Portugal, com a colaboração do Ministério da Saúde (MS) do Brasil.

A pesquisa faz parte do pós-doutorado do professor Bernardino Geraldo Alves Souto, do Departamento de Medicina (DMed) da UFSCar, e foi realizada por meio de acordo de cooperação com o Bioinformatics-based research integrating Evolution, Biology and Medicine (EvoBioMed), que faz parte do Domínio de Microbiologia e Infecção do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da UMinho.

De acordo com dados divulgados pelo Programa das Nações Unidas sobre o HIV (Unaids), em 2019, há 37,9 milhões de pessoas infectadas com o HIV no mundo, sendo que 23,3 milhões têm acesso à terapia antirretroviral. Do total de infectados no mundo, 36,2 milhões são adultos e 1,7 milhão são crianças e jovens com menos de 15 anos.

No Brasil, o último Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do MS, divulgado em 2018, mostrou que, entre 2007 e 2018, foram notificados, pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), 247.795 casos de Aids (68,6% em homens e 31,4% em mulheres). O documento indicou também que o Brasil teve uma média de 40 mil novos casos da doença nos últimos cinco anos, com maior concentração nas regiões Sudeste e Sul.

Para Alves Souto, a infecção pelo HIV é “um problema de saúde de grande importância médica e social, ainda não solucionado mundialmente devido à falta de conhecimento”. Nesse contexto, o estudo atual propôs a epidemiologia, a filogenia e a filogeografia dos subtipos do HIV que circulam no Brasil. A epidemiologia avaliou como o vírus se distribui no território nacional, se afeta mais homens, mulheres, pessoas com maior ou menor grau de escolaridade, como os indivíduos contraíram o HIV etc.

A filogenia estudou as características genéticas do HIV de milhares de pessoas para entender os ancestrais desses vírus e suas origens, quando chegaram ao Brasil e qual a relação genética que há entre os diversos subtipos do HIV que estão no País. Por fim, a filogeografia se dedicou a entender de que lugar do mundo vieram os subtipos do vírus que circulam no Brasil, como eles circulam por aqui e para qual lugar do mundo os vírus “nacionais” estão indo.

A filogenia e a filogeografia utilizaram técnicas avançadas da Biologia Molecular e bioinformática, disponíveis no EvoBioMed, para estudar o DNA de milhares de amostras brasileiras de HIV. A pesquisa processou o DNA de 50 mil amostras de HIV recolhidos no Brasil entre os anos de 2008 e 2017, juntamente com informações sociodemográficas, laboratoriais, terapêuticas e sobre práticas sexuais das pessoas infectadas.

Já na primeira etapa do estudo, os pesquisadores confirmaram dados da literatura que demonstram que o HIV no Brasil tem uma distribuição geográfica curiosa: “O subtipo B é menos prevalente na região Sul, mas encontra-se amplamente disseminado pelas outras regiões do País. Ao contrário, o subtipo C concentra-se no Sul e é pouco prevalente nas outras áreas”, afirma Alves Souto.

Em relação a essas preferências geográficas dos subtipos B e C do HIV em território brasileiro, o professor da UFSCar esclarece que há diferenças biológicas entre os subtipos do vírus, geneticamente determinadas, e isso pode fazer com que sejam diferentes as afinidades de cada subtipo pelas células humanas, assim como a capacidade de cada subtipo invadir o organismo e causar danos. “Isso significa, por exemplo, que alguns subtipos podem encontrar mais facilidade em ambiente vaginal, outros em ambiente anal, etc.

No caso de determinado subtipo encontrar mais facilidade em ambiente vaginal, supõe-se que seja mais transmissível em relações heterossexuais; no caso do subtipo encontrar mais facilidade em ambiente anal, é provável que sua transmissão seja mais comum entre homens homossexuais. Considerando que determinadas formas de transmissão são mais frequentes em umas regiões do que em outras, essa diferença pode influenciar a distribuição geográfica dos diversos subtipos”, indica ele.

Ao mesmo tempo, é sabido que todos os subtipos do HIV podem ser transmitidos do mesmo jeito – relações sexuais sem preservativo, compartilhamento de seringas e agulhas contaminadas, aleitamento materno, gravidez e parto. Entretanto, entre essas vias, algumas transmitem mais facilmente um subtipo do que outro. Isso se dá devido a características biológicas de base genética que são particulares a cada subtipo, ainda pouco esclarecidas.

O professor afirma que as diferentes regiões geográficas podem ter características socioculturais distintas que acabam por influenciar os fatores comportamentais relacionados à transmissão do HIV. Assim, acredita-se que o subtipo do vírus que prevalece em cada região depende do padrão comportamental relacionado à transmissão do HIV que for mais comum na localidade.

Questões ligadas aos cuidados de pré-natal e parto, à densidade demográfica, a fluxos migratórios, ao acesso aos cuidados de saúde etc., também podem influenciar a ocorrência de fatores de risco e, consequentemente, o subtipo que acaba por se tornar o mais prevalente. “Nesse sentido, entendemos, por exemplo, que a região Sul tenha determinadas características sociodemográficas e culturais muito próprias que determinam diferenças nos padrões de comportamento e de autocuidado em saúde que privilegiem a transmissão do subtipo C”, reforça Alves Souto.

Na avaliação do professor, os fatores de ordem sociocultural influentes sobre comportamentos facilitadores da transmissão do HIV se associam às características biológicas específicas de cada subtipo do vírus, intensificando a transmissibilidade de determinados subtipos em relação a outros, em grupos populacionais específicos identificados pelo comportamento de risco socioculturalmente mais prevalente.

Diante de fatores já verificados, como a existência de diferenças genéticas entre os subtipos, influentes sobre os modos de transmissão, o potencial de mutação viral e o perfil de resistência aos medicamentos, Alves Souto destaca que a pesquisa aponta que “políticas públicas e protocolos clínicos devem considerar as diferenças regionais brasileiras e sua relação com os subtipos do HIV circulante para que, ainda que haja uma padronização nacional, questões específicas voltadas à profilaxia e abordagem clínica e social do HIV/Aids sejam adaptadas ao ambiente onde os protocolos serão aplicados”.

Além desses resultados, o estudo também sugere a necessidade de reflexões sobre o protocolo atual para início de tratamento de pessoas que têm HIV e tuberculose ao mesmo tempo, e que ainda não tomaram nenhuma medicação. Entre os vírus estudados, de indivíduos que nunca tomaram medicamento contra o HIV, significativa parcela já tem mutações genéticas que conferem resistência ao esquema de tratamento sugerido como primeira opção. Esse achado da pesquisa será apresentado em evento que reunirá o XII Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, o VII Congresso de Aids e III Congresso Latino-Americano de Infeções Sexualmente Transmissíveis, que acontecerá entre 22 e 25 de setembro, em Foz do Iguaçu (PR).

De acordo com Alves Souto, o resultado do trabalho poderá ser aproveitado para subsidiar o planejamento de ações e políticas públicas relacionadas ao controle do HIV na população brasileira por parte dos órgãos de gestão. Apesar de ter sido um estudo baseado em dados brasileiros, ele também defende que o conhecimento produzido poderá ser útil em outros estudos filogenéticos nacionais e internacionais, de forma a colaborar com a solução de problemas de outras regiões.

CCS-UFSCar

Foto: Google

 
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